Tão distantes e tão diferentes, ambos poderão alcançar
a mistura certa de liberalismo econômico e democracia
Maílson da Nóbrega visitou Cuba e Dubai recentemente, com intervalo de duas semanas. Eis suas reflexões sobre o que viu e leu.
"Ao despedir-se dos turistas na fábrica da Partagas em Havana, o guia recomenda que comprem muitas caixas de charutos. "Será um bom investimento." Espera o ar de dúvida e complementa com humor: "Como os americanos voltarão a comprar, os preços vão subir". Essa visão capitalista – que antecipa prováveis mudanças em Cuba – é a mesma que orienta a notável expansão de um emirado do outro lado do mundo, Dubai.
A capital cubana é o retrato da economia socialista. Estão ausentes os incentivos ao investimento privado, à inovação e aos ganhos de produtividade, que são os verdadeiros motores do crescimento sustentado. Vêem-se muitos prédios decrépitos e automóveis antigos, mas nenhum guindaste de construção civil.
Por sugestão de amigos que haviam visitado Cuba, contratei um táxi para os meus dias na ilha. O motorista-guia é professor de economia da Universidade de Havana, onde ganha o equivalente a 40 dólares por mês. Ex-diplomata, fala cinco idiomas. As gorjetas em "pesos convertibles" superam em muito o salário oficial e permitem o acesso a lojas de importados, onde pode adquirir produtos estrangeiros e superar as agruras do racionamento de comida.
Enquanto dirige o táxi estatal, nosso guia fala dos feitos da revolução e das mudanças em curso. Informa que o setor privado já domina 15% da economia, mas os restaurantes e outras pequenas empresas só podem empregar a família. Nos hotéis estrangeiros, os trabalhadores são funcionários públicos. Imagino que é a maneira de evitar a "mais-valia", a suposta exploração do homem pelo homem. Na realidade, a abertura era inevitável depois da perda dos 4 bilhões de dólares anuais da União Soviética. O prurido marxista é uma desculpa, pois metade do PIB já vem do turismo. A associação com uma empresa francesa aumentou a eficiência na produção do rum Havana Club e decuplicou as exportações.
Nosso taxista é orgulhoso dos avanços na educação e na saúde, mas afirma que o desenvolvimento exige mais. "O melhor seria o caminho chinês, e Raúl Castro poderia ser o Deng Xiaoping cubano", diz, com jeito de bem informado. A experiência da Europa Oriental ensinaria como resolver a questão das propriedades confiscadas pela revolução.
O guia da Partagas parece refletir as conversas deste momento em Cuba. Nosso taxista diz que na sua faculdade 90% dos intelectuais discutem saídas para a transição. Certamente, muitos sonham melhorar suas vidas com pequenos (e talvez grandes) negócios. Ele mesmo planeja atuar no turismo assim que a abertura vier (com empregados, claro), mas é paciente. "Assim como na China de Mao, a mudança virá depois de Fidel."
Dubai, a capital do emirado de mesmo nome, já é capitalista, mas se assemelha a Cuba no lado político: não é uma democracia. No ranking da Economist Intelligence Unit, ambas são consideradas regimes autoritários. Curiosamente, o lugar de Cuba na lista geral (124) é melhor do que o dos Emirados Árabes Unidos (150), dos quais Dubai é parte.
Antes de obter o visto, fui informado de que são barrados pelo serviço de imigração os israelenses ou quem tiver no seu passaporte um carimbo de entrada em Israel. Apesar disso, Jacob Frenkel proferiu a palestra de abertura da conferência promovida em Dubai pelo AIG Global Investment Group. Frenkel é israelita e presidiu o Banco Central de Israel. A explicação pode ser simples: como Dubai busca se consolidar como o maior centro financeiro do Oriente Médio, cuja posição cabia a Beirute antes da guerra civil de 1982, barrar a entrada de Frenkel, conceituado economista, professor de Chicago e ex-diretor de pesquisas do FMI, seria um erro estratégico contra os objetivos do país.
Esse pragmatismo incorpora um cálculo econômico, e não religioso. Dentre os emirados, Dubai não é dos mais contemplados com o petróleo, que logo vai se exaurir. A saída para preservar seu alto padrão de bem-estar é o capitalismo, incluindo a atração do investimento estrangeiro e o caminho sem retorno ao liberalismo econômico. A modernização de Dubai é intensa, mas o governo federal não fica atrás. A ministra da Economia é uma mulher, Lubna Al Qasimi, que em entrevista recente (www.mckinseyquarterly.com) enfatiza o mercado de capitais e diz que o investimento estrangeiro "transfere conhecimento e expertise em áreas que não são o forte do país".
Dubai triplicou de tamanho nos últimos vinte anos. Imagina-se que vá duplicar nos próximos dez anos. A decisão de seus xeques, de transformá-lo em um centro de turismo, serviços e finanças, incrementado por investimentos imobiliários, foi acertada. Dubai é um gigantesco canteiro de obras. Em um mesmo lugar, contaram-se cinqüenta guindastes, um recorde mundial. Sua rede de restaurantes e hotéis impressiona, incluindo o já famoso Burj Al Arab, em forma de vela de barco. Está em construção ali o maior edifício do mundo, o Burj Dubai, com 160 andares e duas vezes a altura do Empire State. O metrô será o mais automatizado do planeta. A Dubailand e suas atrações pretendem ter o dobro do tamanho da Disneylândia.
Sem dispor de pirâmides, museus famosos, ruínas romanas ou locais santos, Dubai consegue atrair milhões de turistas. Estima-se que receberá 15 milhões de visitantes em 2010, mais de dez vezes sua população atual. Para tanto, possui excelente infra-estrutura aeroportuária. Mais de noventa empresas aéreas já operam em seu território. Dubai é cosmopolita. Estrangeiros compõem 85% da população. O árabe é a língua oficial, mas fala-se inglês em todos os lugares. O respeito às tradições, ao modo de vestir e a outros costumes locais é preservado, mas os trajes ocidentais predominam.
Dubai tem economia diversificada e já se transformou no segundo maior centro de reexportação de produtos industriais depois de Cingapura. O petróleo representa apenas 5% do PIB. Além da estabilidade política e econômica, não há miséria e são muito baixos os níveis de criminalidade. Suas empresas despontam nos mercados mundiais. A DP World ganhou concorrência para atuar nos principais portos dos Estados Unidos, mas foi deliberadamente barrada diante de temores no Congresso.
Cuba pode chegar à democracia antes de Dubai, mas ainda não é claro se vai mesmo caminhar para a economia de mercado, apesar da crescente percepção de que isso será inevitável. O socialismo se torna insustentável pelas mesmas razões que o levaram a desmoronar na Europa e na China, isto é, sua incapacidade de gerar riqueza e bem-estar no ritmo do Ocidente. A saída deve demorar a aparecer. Fidel ainda dá sinais de vida e de insensatez, como no brado recente contra o etanol, que segundo ele matará bilhões.
Condições para a construção de uma economia capitalista em Cuba existem. Segundo Julia Sweig, do Council on Foreign Relations, "embora infestada por uma corrupção crescente, Cuba dispõe de uma burocracia profissional, de militares testados em batalhas, diplomatas capazes e mão-de-obra qualificada. Os cubanos são altamente instruídos, cosmopolitas, saudáveis e dotados de infinita capacidade empresarial" (Foreign Affairs, jan./fev. 2007). Uma das maiores especialistas americanas em assuntos cubanos, Julia Sweig fez 84 visitas à ilha e se reuniu algumas vezes com Fidel. Os círculos que ela freqüenta por lá reconhecem a necessidade de resolver a baixa produtividade e a ineficiência na atividade produtiva. O caminho é óbvio.
Dubai depende de si própria para continuar prosperando sob o sistema capitalista e talvez iniciar uma transição rumo ao regime democrático. Cuba depende de um líder com visão de futuro, paciência e persistência para guiá-la na direção do binômio democracia-economia de mercado, mas também das atitudes do governo americano. Depois do colapso soviético, Cuba deixou de ser um problema de segurança e se tornou uma questão política doméstica, por causa dos votos cubanos na Flórida e das pressões de grupos anticastristas para o endurecimento das relações com Fidel. O sucesso da transição dependerá muito de ganhos de racionalidade na política externa dos Estados Unidos em relação a Cuba.
Nem todos se conformarão com essas duas transições. A velha esquerda latino-americana dificilmente aceitará que o comunismo de Fidel tenha sido apenas um caminho mais longo para chegar à economia de mercado. Mike Davis, em artigo de 2006 na New Left Review (http://newleftreview.org), vê ameaças no progresso estonteante de Dubai. Para ele, os atuais aplausos de bilionários e multinacionais, seus supostos beneficiários, podem desaguar em um retorno a um pesadelo do passado. "Speer (o arquiteto do III Reich) encontrará Disney nas praias da Arábia."
Na verdade, Cuba e Dubai têm tudo para construir uma combinação bem-sucedida de democracia e capitalismo. O futuro dirá."
Maílson da Nóbrega é ex-ministro
da Fazenda e sócio da Tendências Consultoria Integrada
Um comentário:
"A capital cubana é o retrato da economia socialista."
Tudo que voce sempre quis ehn hehehe... :D
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